sociologando


A novidade é o Site

A fim de dar maior magnitude ao trabalho desenvolvido em sala de aula é que resolvi criar e manter o site http://www.sociologando.com.br. Coloco o mesmo a partir de agora a disposição dos meus ex-alunos.

Fraternalmente,

Professor Renato. 

 



Escrito por Renato às 22h27
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PARABÉNS AOS FORMANDOS DE 2008!

Impossibilitado de comparecer às cerimônias de formatura dos dias 16 e 20 de dezembro deste ano, deixo aqui um carinhoso e fraterno abraço a todas as alunas e a todos os alunos. Faço-o como reconhecimento pelo empenho, pela dedicação e grau alcançados no curso dessa longa e ao mesmo tempo breve caminhada rumo à difícil e por isso tão digna condição: a de professor. Professor, sim; técnico, não. Lembrem-se: ser professor é não abrir mão da teoria e da verdade científica. Ser professor é se cercar de senso de observação, de razão, de amor à humanidade e à sua imensa cultura livresca. Ser mestre é não abrir mão da História e do compromisso com os povos oprimidos pela ignorância, pela miséria e a fome. Sejam, portanto, muito bem-vindos à esta nova e incrível condição: mestres e companheiros!

Hasta la vista siempre!

Professor Renato Fialho



Escrito por Renato às 23h03
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- Só um tapinha não dói?

A Justiça Federal condenou a empresa Furacão 2000 pela letra da música 'Só um tapinha não dói', por banalizar a violência contra a mulher, informou o BOLETIM RIO MÍDIA - 5º ANO - Nº 14, da MULTIRIO (Prefeitura do Rio).



Categoria: Música
Escrito por Renato às 10h34
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CHE, por Emir Sader

(Texto de Emir sader que recebi por e-mail de uma amiga: vale à pena ser lido!)

Há personagens com uma tal estatura histórica que, independente dos adjetivos e de todos os advérbios, ainda assim não conseguimos retratá-los em nada que possamos dizer ou escrever. O que falar de Marx, que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel?

Hegel dizia que existem personagens cuja biografia não ultrapassa o plano da vida privada, enquanto outros são os personagens cósmicos, estes cujas biografias coincidem com o olho do furacão da história.

O Che é um destes personagens cósmicos. Basta dizer que, independente de qualquer campanha publicitária, sua imagem transformou-se na mais vista do século XX e assim continua neste novo século. Nenhum esportista, artista ou músico, mesmo com bilionárias promoções pelo mundo globalizado afora, se mantém num lugar parecido. O Che veio para ficar.

Novas gerações, nascidas depois da morte do Che, continuam identificando-se com sua imagem, com seu sentimento de rebeldia, com sua coragem, com sua luta implacável contra toda injustiça.

Não vou gastar palavras inúteis para falar do Che. Basta reproduzir algumas das suas frases, que selecionei para o livro "Sem perder a ternura".

"A única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência..."

"Nós, que, pelo império das circunstâncias, dirigimos a revolução, não somos donos da verdade, menos ainda de toda a sapiência do mundo. Temos que aprender todos os dias. O dia que deixarmos de aprender, que acreditarmos saber tudo, ou que tivermos perdido nossa capacidade de contato ou de intercâmbio com o povo e com a juventude, será o dia em que teremos deixado de ser revolucionários e, então, o melhor que vocês poderiam fazer seria jogar-nos fora..."

"Deixa-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor."

"Nosso sacrifício é consciente. É a cota que temos de pagar pela liberdade que construímos."

"Muitos dirão que sou aventureiro, e sou mesmo, só que de um tipo diferente, destes que entregam a própria pele para demonstrar suas verdades."

"Sobretudo, sejam capazes de sentir, no mais profundo de vocês, qualquer injustiça contra qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo." (Carta de despedida aos filhos)

"É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais."

"Que importam os perigos ou os sacrifícios de um homem ou de um povo, quando está em jogo o destino da humanidade."

"É um dos momentos em que é preciso tomar grandes decisões: este tipo de luta nos dá a oportunidade de nos convertermos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também nos permite graduar como homens."

"Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais completos; somos mais completos porque somos mais livres."

Postado por Emir Sader em 06/10/07 às 18:54



Categoria: Textos
Escrito por Renato às 15h10
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Declaração Universal dos Direitos Humanos

Nos tempos atuais, onde as elites (representadas por 700 trilionários) não páram de vilipendiar os nossos direitos, é sempre bom relembrá-los. E, além disso, não perder de vista o que diz um samba de Aluísio Machado, da Velha Guarda do Império Serrano: "Os direitos humanos são iguais, mas existem as classes sociais".
A seguir, para acessar a Declaração em português, clique http://www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm .


Escrito por Renato às 10h05
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O nosso cérebro é doido!

 

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Sohw de bloa.

araboçs,

(Aônnmnio reebcdio por e-mial)

Escrito por Renato às 16h44
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Sobre o papel da mídia na atualidade

Recomendo, aos que tiverem condição, a aquisição da edição da Revista "Carta Capital" que acaba de sair de circulação (n. 447), cuja manchete da capa é "A mídia faz política". Trata-se de um artigo bem escrito (exceção apenas para a parte referente à mídia nacional) e que merece a apreciação atenta de todos nós. É importante para os que estudam Sociologia da Educação, na medida em que os meios de comunicação são instituições cada vez mais influentes no processo educativo e monopolizadas por meia dúzia de transnacionais cujo interesse principal, e porque não dizer o único interesse, é o lucro privado.

É possível acessar um dos artigos clicando >>aqui<<.

A revista é acessível pela internet em http://www.cartacapital.com.br/edicoes/447/



Escrito por Renato às 10h38
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BIBLIOGRAFIA BÁSICA EM SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

- OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia da Educação. São Paulo, Editora Ática, 2005.

- MEKSENAS, Paulo. Sociologia da Educação: Introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo, Edições Loyola, 2003.

- BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo, Brasiliense, 2003.

- TOSCANO, Moema. Introdução à Sociologia Educacional. Rio de Janeiro, Vozes, 2004.

- GADOTTI, Moacir. Concepção Dialética da Educação: um estudo introdutório. São Paulo, Cortez Editora, 2003, 14ª edição.

- KRUPPA, Sônia M. Portella. Sociologia da Educação. São Paulo, Cortez, 2002.

- MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas (em três volumes). São Paulo, Editora Alfa-Ômega.

OBS: A bibliografia aqui arrolada não é para ser comprada necessariamente. A idéia é indicar o caminho das pedras para os que desejem se aprofundar na disciplina.  



Escrito por Renato às 14h23
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Isso e um teste de edicao via celular.

Escrito por Renato às 10h44
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Identidade e sofisma: a base filosófica da pretensão pós-moderna

Pré-socrático da escola itálica, Parmênides de Eléia (510-470 a.C.) foi discípulo do pitagórico Amínias, muito embora Aristóteles tenha levantado a suspeita de que o mesmo pudesse ser discípulo de Xenófanes.

 

Parmênides foi o criador do princípio da identidade ou da não-contradição, cuja síntese se expressa na seguinte frase: “ou uma coisa é ou não é”.  Ou: “o ser é; o não-ser não é”. Parmênides refutou o papel dos sentidos como fonte de conhecimento e julgou impossível compreender o movimento. Via assim os sentidos e o movimento como parte do mundo das aparências e das ilusões. Desta forma, propunha, como fará mais tarde Descartes, a razão como única via de acesso à verdade, à coerência e à essência.

 

O princípio da identidade está associado a sua preocupação com a ordem. Considerava como elementos caóticos os sentidos, a asserção negativa e a contradição e, nesses termos, foi um crítico contumaz dos pitagóricos e, em especial, do principal representante da escola jônica: Heráclito de Éfeso (“o pai da dialética”).

 

Sobre o filósofo de Eléia, afirmara Plutarco: “Parmênides manteve a ordem no seu próprio estado com leis tão admiráveis que o governo, todos os anos, fazia os cidadãos jurarem que continuariam fiéis às leis de Parmênides”.

 

É possível assim perceber que Parmênides, fiel ao espírito escravocrata de então, lançou as bases do pensamento conservador. Era preciso manter a ordem socioeconômica e política vigente e, para tal, lançou mão do argumento filosófico (a filosofia grega surge na verdade nas colônias gregas: Magna Grécia e Jônia), já que a mitologia (ou religião pagã oficial) já não mais dava conta de explicar o dilatado e ampliado mundo grego. Com isto, Parmênides propõe a afirmação (conceitual, classificatória) em detrimento à negação (crítica, perigosa, revolucionária); o estável ao instável; o consenso ao conflito; a dedução à indução; o princípio da não-contradição ao princípio da contradição; a idéia de deus ao invés do movimento como princípio criador e contraponto natural da matéria; logo, a identidade à dialética. Alias, há aí um grande problema. A identidade, fundamental para classificar o mundo, não dá conta de explicá-lo em sua dinâmica, o mundo real em movimento, as leis do movimento, seja este movimento de que tipo for: físico, matemático, químico, biológico, social, econômico e histórico.

 

Tratava-se de definir o ser, sua essência, de re-estabelecer os limites de tudo. Tratava-se de legitimar e impor um império, de eliminar o pensamento que reverenciasse o conflito, criar uma espécie de identidade entre os diferentes ou entre os diferentes domínios gregos, de separar, de definir, de partilhar, de criar ordem, regras, leis.

 

Outra raiz do pensamento pós-moderno encontra-se na Grécia Antiga: o sofismo. Os sofistas foram os pseudofilósofos, ou seja, figuras que, através do uso da retórica e da argumentação formal e sem escrúpulos, buscavam convencer os ouvintes da “veracidade” de qualquer idéia, mesmo que falsas (vendiam gato por lebre, mentiras como se fossem verdades). O sofismo foi um fenômeno oriundo do surgimento da democracia grega, das assembléias públicas, que incitavam à discussão de nobres e plebeus: os não-escravos. Foi também fruto da política externa imperialista ateniense.

 

Essa falta de compromisso com a verdade, essa filosofia do dinheiro só podia se basear no uso pueril da retórica e da escrita. Através do argumento malicioso, o sofista, este ser vil e venal, se enche de frases feitas e palavras difíceis. Ao invés de esclarecer, o sofista prefere envolver, fixando-se no limbo, na penumbra e nas opiniões (as doxas) na qual ele é mestre em manipular: opta pela doxologia ao invés da filosofia.

 

O sofisma é a arte da avidez, da técnica sofisticada, da beleza vazia, do falar sem dizer, da aparência destituída de conteúdo: é o autêntico mundo das aparências, que tanto imaginara Parmênides. O sofisma é a falta de razão, ou o seu uso indevido, egoísta e pragmático. É relegar a necessidade de provas, é o descolar entre a verdade e a realidade – sua base concreta. É um método sutil de emaranhar platéias incautas, como o faz as aranhas ao envolver suas vítimas, com seus fios de uma razão sórdida.

 

Junte-se a este princípio (da não-contradição), a retórica sofista (o irracionalismo) e estão lançadas as bases filosóficas do pensamento pós-moderno.



Categoria: Textos
Escrito por Renato às 21h31
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O Metrô: o buraco em que nos enfiamos – 4ª e última parte

Aliás, numa dessas leituras de metrô, li um artigo muito interessante de Aijaz Ahmad intitulado “Cultura, nacionalismo e o papel dos intelectuais”. O artigo é parte de uma coletânea organizada por E. M. Wood e J. B. Foster, cujo título é “Em defesa da História: Marxismo e pós-modernismo”, publicado pela Jorge Zahar Editor. Num determinado trecho do artigo, Aijaz assim se coloca a respeito dessa história de minorias: “O que estou tentando dizer... é que o egoísmo coletivo de comunidades separadas não constitui talvez uma grande melhoria sobre o egoísmo histórico do homem burguês, e que precisamos de formas de política que formem seres humanos em sua heterogeneidade e universalidade”.

 

Fomos vítimas, assim, repentinamente e às vésperas das eleições gerais, desta autêntica e perigosa demagogia, baseada no “egoísmo grupal de identidades diferentes”. Se ao menos os gentis-homens, os nobres-deputados, os filhos de uma égua (e que me desculpem as éguas) viajassem todos os dias de metrô! Mas, não! Somos nós, os otários, os ludibriados trabalhadores, os espezinhados estudantes de dantes que temos de submeter nossos saturados ouvidos a mais esta destemperada política da mesquinhez.

 

A razão alegada, de tamanha irracionalidade, é que a lei visa proteger as mulheres dos “assédios masculinos”. Descobri então que acabava de ser posto, à força, na classe dos tarados e meliantes: dos mal-educados, dos que desconhecem o respeito como forma de vida. De supetão, a imensa maioria dos homens foi incriminada por um crime que jamais cometeu. Aceitaremos pagar por mais este pato?

 

Ora bolas! Freqüentador assíduo do metrô há anos mais de 25 anos, eu vi apenas uma única cena de assédio, que, diga-se de passagem, foi imediatamente reprimida com vigor inclusive exagerado por um cidadão que presenciava a cena. Lembro-me bem de que o carro estava bem cheio e não sei informar como foi possível abrir tão expressivo clarão quando os dois começaram a contenda. O cara, que “não era cabra, mas percevejo” (peço licença a Sérgio Ricardo e Carlos Drummond de Andrade), foi posto pra fora à ponta-pé assim que o trem parou e abriu às portas na estação de Irajá.

 

Mas, se o distinto público me conceder um aparte de paciência: será que a questão aqui não é justamente de falta de cidadania? Bem! Penso que todo mundo sabe que cidadania é uma conjunção de direitos e deveres, e não é por acaso que a palavra “direitos”, no plural, vem abrindo o desfile. Quero com isso dizer que: se tivéssemos o direito à Educação garantido a todos, não só através do acesso à escola, mas através do acesso a um ensino de qualidade, não teríamos a falta de respeito. Enfim, se a “maravilhosa” idéia é a de nos retirarem direitos, é preciso aumentar os deveres (criar mais leis para reprimir os cidadãos “capengas de direitos”). Sim, as leis são os deveres. E que cidadania maldita é esta que nos pede tanto deveres quanto mais direitos nos tiram?

 

E pra terminar essa viagem pelo buraco-negro, essa lei parece beneficiar interesses espúrios, o que tem se tornado um triste hábito no Brasil: os interesses do consórcio monopolista que arrematou o “direito” (e os capitalistas estão cheio deles) de explorar a concessão metroviária. A fim de transformar usuários do metrô em “sardinhas em lata” nada melhor que preparar um carro especial para as “sardinhas fêmeas”: o vagão das mulheres se transformou no vagão mais desconfortável de se viajar. E, o que parecia respeitar as mulheres, está sim, as desrespeitando, discriminando-as. Isso me lembra aquelas desrespeitosas filas de idosos espalhadas em todo o país, onde o idoso fica horas na sua fila (presente grego?), enquanto nos caixas comuns as pessoas em geral são atendidas rapidamente. Mais um tiro a sair pela culatra... Ah! Antes que eu esqueça. O mesmo vale para os bancos de cor laranja do próprio metrô: canso de assistir adultos e jovens sentados indiferentes em seus bancos verdes quando os bancos laranjas estão lotados de idosos, gestantes etc. O banco verde é meu, pensam as pessoas em geral.

 

Fala sério: que mundo é este que estamos criando? Até quando permitiremos leis que desrespeitam as maiorias?




Categoria: Textos
Escrito por Renato às 23h24
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O Metrô: o buraco em que nos enfiamos – 3ª parte

Como dizia, saquei da pasta a tiracolo a leitura que, habilmente, havia escolhido na noite anterior. Entre papos-furados e conversas convidativas, tratei de iniciar minha penetrante comilança de letras, palavras, frases, parágrafos, capítulos, até o destino que me era imposto pela necessidade mórbida de ter de trabalhar. Estava eu, então, próximo de me concentrar quando o som do alto-falante se pôs a nos lembrar, como o faz todo-o-santo-dia:

 

– “DIM-DOM! Os bancos de cor laranja são destinados a pessoas com necessidades especiais, gestantes, idosos, pessoas com crianças de colo e portadores de deficiência: ceda o lugar!”.

 

Aguardei o término do maldito slogan para retornar para a minha digníssima leitura... Pus-me a ler em seguida e, quando estava para terminar o primeiro parágrafo do capítulo que iniciava:

 

– “DIM-DOM! Próxima estação, Engenheiro Rubens Paiva, desembarque pelo lado esquerdo. Next stop, Engenheiro Rubens Paiva station”.

 

Mal tive tempo para respirar, quanto mais para pensar, quando o desgraçado do alto-falante se impôs, novamente insolente, a solapar a cultura:

 

– “DIM-DOM! O metrô destina carros especiais para as mulheres no horário de 6 às 9 da manhã e de 17 às 20 horas. Carro das mulheres. Respeito é bom e elas merecem. Respeitar a lei é uma questão de Cidadania”.

 

Naquele instante então a minha paciência se esgotara. O meu senso de democracia, de dignidade e de cabra-macho tinha sido completamente pisoteado, destroçado e humilhado. Foi quando iniciei a pensar como se tornara chato viajar de metrô. Logo eu, usuário assíduo desde sua inauguração. Logo eu que sempre fui um ardoroso adepto deste meio de transporte tão verdadeiramente de massas, limpo em quase todos os sentidos: organização exemplar, asseio, energia elétrica (não poluente).

 

Sim! Naquele preciso instante me senti, pela primeira vez em tantos anos, num ambiente metroviário sujo, indigno, desigual, repleto de “energia negativa” e desonroso.

 

Era a primeira vez que ouvia aquele “gracejo”. Era uma frase tão inédita quanto repugnante. Mas era a expressão da mais pura (ou raça pura) verdade: a câmara dos deputados, rasgando o artigo 1º da Constituição de 1988 que diz: “todo homem é igual perante a lei”, aprovara uma lei que se baseia na diferença, que outorga privilégios sexuais, que discrimina por gênero e atacado.

 

(continua) 



Categoria: Textos
Escrito por Renato às 23h23
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O Metrô: o buraco em que nos enfiamos – 2ª parte

Desci o mais rápido que pude a escadaria e me lembro que fiquei assustado ao ver a ultrapassagem irregular, pela direita, de um rapaz que devia estar a caminho de tirar o pai da forca: o destrambelhado descia a escada saltando, com rara habilidade, de dois em dois degraus, aviltando, pondo no bolso, o fantasma do perigo.

 

Já na plataforma, graciosas beldades ofereciam jornais com manchetes geralmente nada graciosas: notícias da novela das oito surgem como se fossem fatos da mais concreta realidade; fofocas envolvendo gente famosa se fortificam junto a colunas da mais alta futilidade; a precisão no gol pretende desfazer os tempos inexatos em que se vive, notícias sensacionalistas e corpos mutilados emaranham-se em meio a musas quase nuas em cores e matizes de esplendida brasilidade.

 

Contudo, o dever profissional e minha determinação de passar ileso pelo turbilhão irracional de ofertas mercantis, obrigaram-me, como bom calculista que penso ser, a posicionar-me no ponto ideal médio de paragem da escorregadia “composição dando entrada na plataforma”. É lógico que me vali das faixas em amarelo coladas ao chão para me situar, mas, evidentemente, sem segui-la de modo dogmático. Elas, aparentemente generosas, informam a todos para que tenham cuidado entre o vão situado entre o trem e a plataforma. Como um carro acabara de sair, fiquei posicionado segundo o tipo ideal de parada, após aplicação mental das leis da probabilidade e da estatística aplicada. Em poucos segundos, uma leva de usuários como eu, posicionaram-se frente à maldita faixa orientadora. Mas uma lógica irracional e perversa parece habitar as mentes dos condutores, explorados a metro que são, que parecem querer fustigar os ânimos da massa de carne exaurida obrigada oprimida comprimida a passar por ali, c-o-t-i-d-i-a-n-a-m-e-n-t-e. Parecem querer testar-nos, um a um, sedentos que somos de descansar os esqueletos, nem que seja por uma maldita hora de viagem. Assim, aqueles poucos lugares que ainda restam, pois que o trem já traz os que irão seguir viagem, são disputados com esmero olímpico e desumano.

 

Naquele dia, entretanto, errei feio o cálculo de minha loteria matinal. O trem parara a dois metros de onde me encontrava. Mas, a galera, feito urubu na carniça, arremessou-se de encontro à porta cerrada. Alguns segundos de suspense são tradicionais nesta hora: como sempre a porta do lado oposto da plataforma se fechou primeiro; uma demora relativizada pelos anseios e pronto. Lá se vai a manada humana a perseguir o nada. Sim, já não havia lugares para se sentar. Já não havia lugares e a disputa se deu pelo costume de ser frenético. De fato, lutou-se pelos melhores lugares em pé, como num aquecimento para a roda viva do capital: nos cantos é possível encostar-se, junto aos ferros que unem o chão ao teto do carro um certo conforto é factível.

 

Como de costume, saquei da pasta a tiracolo a leitura do dia.

 

(continua...)



Categoria: Textos
Escrito por Renato às 22h52
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O Metrô: o buraco em que nos enfiamos – 1ª parte

Como faço há vários anos, lá estava eu em plena Pavuna, a saltar do ônibus com um bilhete de integração ônibus-metrô adquirido a R$ 4,00. Pra quem não conhece, Pavuna é um bairro que fica no subúrbio do Rio de Janeiro, mas propriamente na divisa com a Baixada Fluminense. Diante do ponto final do ônibus é possível enxergar a rampa de acesso ao metrô, de cinco estágios, destinada a cruzar a linha ferroviária auxiliar (da ex-estatal RFFSA).

 

Neste dia, consegui ligar no automático, pois que havia combinado comigo mesmo: “hoje vou resistir aos sortilégios mercadológicos”. Assim numa determinação hercúlea, passei varado pelo longo e torturante corredor polonês de camelôs e ambulantes estrategicamente posicionados ao longo do vai e vem do exaustivo aclive.

 

Cheguei ao topo da rampa com ar glorioso. Havia resistido bem as tentações de toda espécie. Mais uns poucos passos e adentrei no hall de acesso à gare. Confiante e viril, enfiei o distinto bilhete no buraco da catraca eletrônica, que, seduzida, não tardou em me liberar a passagem.

 

Sou agora, pensei, um usuário habilitado a circular pelas dependências pagas do metrô, afinal havia comprado o direito de ser transportado e, a mercadoria que comprei deve satisfazer a minha necessidade de chegar ao trabalho, como de rotina. Aliás, este é o papel de qualquer mercadoria: satisfazer uma necessidade - seja ela proveniente do corpo (necessidade material) ou do espírito. Lembrei-me assim do “velho” e formidável Marx.

 

Segui em direção às escadas que conduzem a massa ordeira às plataformas da estação. Antes de iniciar a descida da escadaria, jovens trabalhadoras, autorizadas pelo metrô, oferecem aos passantes cartões telefônicos das mais variegadas empresas. Determinado, porém, a resistir a todo tipo de persuasão, ignorei todo tipo de comércio e palavrório. As palavras que entravam pelo meu ouvido esquerdo saiam pelo direito, enquanto as que entravam pelo direito não tardavam em sair pelo esquerdo. Procurei ignorar as lojinhas de biscoitos finos e lanches rápidos, assim como as de bugigangas, tudo com o máximo de arrogância possível, a ponto de me iludir que estava batendo o presidente Lula (aliás o Lula Molusco não fica muito atrás, é, aquele do Bob Esponja, lembra? Êta sujeitinho arrogante! Será que é mal do nome?).

 

(continua...)



Categoria: Textos
Escrito por Renato às 22h48
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Recomendando

Para os que gostam e entendem a importância de ouvir música brasileira de qualidade, recomendo:

1) O CD "Afinidade", de Marco Pereira (violão) e Gabriel Grossi (gaita), lançado pela Biscoito Fino. É som de primeira linha. Conheça mais a respeito no site http://www.marcopereira.com.br/.



Categoria: Música
Escrito por Renato às 13h37
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